recomeça o futuro sem esquecer o passado

3 de agosto de 2026

Pertinências 20 - Orquestra de Jazz do Algarve no Teatro de Palha


Sanzalando

mergulhando na ponte velha

A manhã devia estar a bater nos trinta graus, como se eu alguma vez estivesse preocupado com a temperatura, excepto nos dias de paludismo, e, na ponte velha que já teve um guindaste no canto direito, a brisa soprava com aquele cheiro característico a sal marinho e maresia. Estava zulmarinho dentro, entenda-se. Na ponte velha, o espetáculo habitual do verão de março já estava em pleno andamento: um grupo de quatro ou cinco rapazes, na casa dos dezassete anos, ensaiava o grande salto. As futuras namoradas, desde a areia da praia lhes olham, embevecidas ou amedrontadas, que não sou especialista em ver caras das namoradas dos outros.

Ver adolescentes mais velhos a mergulharem da ponte é, em si mesmo, uma comédia em três actos, sobre a bravura humana, a força da gravidade, sobre o estilo e o estatelado. Saíram quatro actos.

Nenhum salto de ponte acontece sem, pelo menos, vinte minutos de rigoroso protocolo de bastidores. Não é que eu tenha relógio para marcar, mas a sensação de quem lhes está a ver é mais ou menos essa: ajuste Infinito - Calções de banho subidos até à cintura, depois puxados para baixo, depois ajustados novamente só para garantir que a física não pregava nenhuma partida no impacto; inspeção marítima -olha-se para a água com o ar compenetrado de quem está a calcular a rotação da Terra e a densidade salina, quando na verdade só se está a ganhar tempo; desafio da plateia - de vez em quando, um olhava de relance para trás e para a longa praia para ver se havia alguém a assistir. Afinal, a coragem só conta se tiver público. Sem público não há salto. 

O líder do grupo, facilmente identificável por ser o que falava mais alto para disfarçar o tremor nos joelhos chegou-se à borda, abriu os braços como uma águia e gritou:

- É aos três! Um... dois...

No "dois", passou uma vedeta ao longe, acho que é a única que a cidade tinha.

- Calma, calma, vem ali navio! - justificou-se imediatamente, recuando dois passos com ar técnico.

A malta no cais, que já assobiava a assistir ao aparato, começou a rir. Os amigos, claro, não perdoaram. O segundo da fila, querendo mostrar que era feito de outro ferro, avançou. Posicionou-se, olhou para baixo, olhou para o horizonte, fez o sinal da cruz duas vezes e soltou o clássico: "Grava aí na memória!"

À terceira tentativa e após mais cinco minutos de contagens que paravam sempre no dois, o entusiasmo da bancada improvisada já era geral.

De repente, sem aviso e provavelmente porque escorregou ligeiramente numa tábua velha e mal presa, o primeiro lá se lançou num verdadeiro estatelado.

Não foi um mergulho olímpico, foi mais uma tentativa desesperada de pedalar no ar enquanto o corpo lutava contra as leis da física. A entrada na água foi um misto de bomba com chapa de lado, levantando uma cortina de água digna do que veria mais tarde num parque aquático.

Segundos depois, a cabeça emersa na água, o cabelo colado aos olhos e o grito de vitória:

- Viram esta técnica?! Entrei limpinho! - pela voz parecia-me o Rui Moutinho, mas de facto não tenho a certeza, o estilo dele era mais palavroso do que efectivamente acto.

Os amigos, contagiados pela adrenalina (e pela vergonha de ficarem em terra), saltaram logo a seguir num caos absoluto de braços, pernas e gargalhadas que ecoaram na praia toda o que levou o vigia a deslocar-se e proibir mais saltos.

No final, restou a imagem clássica do verão: o grupo a nadar satisfeito para a margem, a massagear as costas encarnadas pelo impacto e a jurar que o próximo salto seria "de cabeça". Mas só no dia seguinte, claro.



Sanzalando

2 de agosto de 2026

Pertinências 20 - Orquestra de Jazz do Algarve no Teatro de Palha

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Nem sempre só as palavras são pertinentes. Também a Música e lugares
Encerramento do Teatro de Palha em Aljezur o foi e aqui fica 





Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar. Neste caso foi a música


Imperdível



Sanzalando

31 de julho de 2026

Da Austrália a Portugal, sai um apêndice

O Robert tinha um plano perfeito para as suas férias em Portugal: sol, praias algarvias e surf, muito surf. O plano corria lindamente até que ao terceiro dia, uma dor na barriga, que ele jurava ser apenas uma revelação cósmica provocada por excesso de mar e sandes, decidiu fincar o pé do lado direito daquela barriga de 21 anos. O mar da costa norte, como chamam à outra costa algarvia para lá de Sagres, era o lugar ideal para aquele jovem à procura de aventura, surf e amigas. A verba não abundava pelo que optara por cortar na comida. Um refeição séria e depois pão e mar.
Às duas da manhã, sozinho num quarto de hostel perto de Aljezur, o Robert percebeu que não era a comida que lhe fazia doer cada vez mais. Era o apêndice a gritar  um adeus ou tirem-me daqui.
Sem família num raio de mais mil quilómetros, o Robert deu entrada no hospital público com a dignidade de quem veste calções de praia amassados, uma t-shirt a dizer I ❤️ PT e chinelos de enfiar o dedo.
No meu inglês mais de praia do que científico, fui claro:
Ora bem, isto é uma apendicite aguda. Vamos ter de abrir e tirar isso já — anunciei, com a calma de quem vai só mudar o óleo a um carro.
O pânico do Robert não era a cirurgia; era a burocracia da solidão. Sem mãe para lhe segurar a mão ou pai para reclamar com os médicos, ele tentou o seu melhor, só queria falar com o pai.
Emprestei o meu telemóvel e até hoje foi a única chamada que fiz para a Austrália. A preocupação do pai era como mandar o dinheiro para pagar ao hospital. Explicado que isso era um problema que não existia que depois os serviços iriam entrar em contacto com ele ou com os seguros ou seja lá como é que era que isso não era agora um problema. 
Passei o telemóvel ao Robert que continuou a falar, cada vez mais choroso e notava-se que o loiro dos seus cabelos estavam a ficar pior que mar bravio. Desligou e disse-me:
- Eu não quero morrer!
Uma enfermeira de coração de ouro, olhou para ele, ajeitou-lhe o lençol com um safanão e respondeu no mais puro sotaque nortenho (apesar de estarmos no sul):
Deixa-te de parvoíces! Aqui ninguém morre. E a partir de agora, eu sou a tua mãe, a tua tia e a tua avó. Vá, toma lá o soro e cala-te.
Tudo preparadinho fomos para o Bloco Operatório
A anestesia fez efeito e o Robert apagou. Quando acordou na sala de recuperação, ainda meio grogue, olhou para o lado e viu que a promessa da enfermeira era literal. 
Então, campeão? Já acordaste? — disse o Joaquim, assistente operacional, mais eficiente no trato que muitos de nós em bom a inglês a prometer-lhe gelatina de morango mal tivesse ordens para isso. Entrei no quarto e disparei:
- Correu bem. O teu apêndice já era. Agora é que vais ver o que é bom, o pessoal tratam-te como um príncipe.
Nos dois dias seguintes, o isolamento do Robert transformou-se num fenómeno social. Como o estrangeiro do apêndice estava sozinho, o pessoal do hospital adotou-o. Eu passava a manhã para falar de surf e ondas, o enfermeiro da noite explicava-lhe onde comer as melhores amêijoas na zona, e as auxiliares entravam no quarto para lhe ensinar palavrões em português para ele usar "quando voltasse à noite.
Quando finalmente teve alta, o Robert estava quase triste por ir embora. Não tinha família de sangue por perto, mas saiu do hospital com uma cicatriz nova, três receitas médicas, o contacto de Instagram de metade da equipa de enfermagem e a certeza absoluta de que, em Portugal, até uma cirurgia de emergência sozinho acaba com sabor a almoço de domingo em família.


Sanzalando

30 de julho de 2026

numa urgência tudo pode acontecer

Foi nos gloriosos anos 90, quando os hospitais ainda tinham corredores onde o eco das passadas pareciam anunciar más notícias, as radiografias viam-se penduradas em retângulos iluminados, pomposamente chamadas de negatoscópio, e o café da cafeteira era considerado um tratamento complementar que nos era oferecido pelas auxiliares..

Eu era um jovem cirurgião.

Jovem significa, em medicina, alguém que sabe tudo... durante cerca de três semanas. Depois percebe que afinal sabe pouco, mas ao fim de alguns anos descobre que então sabe ainda menos. É uma especialidade excelente para combater a vaidade.

Naquela manhã apareceu um senhor de quase oitenta anos. Entrou no gabinete da urgência com uma calma irritante. Quem estava nervoso era eu.

- Então, doutor... sou eu o seu primeiro da manhã?

- Sim - babulciei.

Ele sorriu.

- Ainda bem. Assim, se correr mal, o senhor melhora para o segundo.

Sorri por educação. Interiormente procurei o manual "Como responder a um doente com espírito brincalhão?". Não existia, pelo menos para mim. Comecei a fazer perguntas.

- Tem alergias?

- Tenho.

- A quê?

- A hospitais.

Anotei com a minha letra ainda redonda e perfeitamente legível apenas -sem alergias conhecidas.

Continuei.

- Alguma doença importante?

- Casamento. Há cinquenta e dois anos.

Olhei para ele com o ar mais sério que conseguia ter na altura.

Ele olhou para mim a sorrir.

A enfermeira que havia entrado uns segundos antes fingiu que estava muito ocupada a organizar papéis para não se rir.

Reli a ficha. Virei a página e continuei a ler. O meu colega tinha escrito "apendicite". 

Como é que uma apendicite ainda dá para ter esta disposição toda? Deite-se ali, disse-lhe apontando para a marquesa. 

- Outra vez? - perguntou ele - Já o seu colega me fez andar aqui aos saltos...

É. Ele tinha, tudo indicava, uma apendicite. As análises mostravam leucocitose. As minhas mãos diziam que era mesmo. 

Com o ar mais sério e carrancudo expliquei a cirurgia com todo o rigor científico.

Desenhei.

Mostrei exames.

Falei de riscos, benefícios, complicações e recuperação.

Quando terminei, ele fez silêncio.

Pensei que estava impressionado com a minha competência.

Afinal perguntou:

— Doutor... e isso tudo custa muito ou cobra pelas palavras que recitou?

Foi nesse momento que compreendi que aquele homem estava ali para me testar.

Pedi á enfermeira para prepará-lo para o bloco.  Queria transmitir confiança.

Ela levou-o. Falei com o Chefe que sorria e me dizia se é avança!

Fui ver o doente outra vez.

Encontrei-o a ler o jornal, deitado numa maca e tapadinho com lençol branco imaculado.

- Está pronto? -perguntei

- Prontíssimo. O senhor é que parece que não.

Disfarcei.

- É normal.

- Não é normal, doutor. O senhor é que me vai operar. Eu só tenho de me deitar e deixar-me dormir.

Nunca uma frase tão simples me fez sentir tão pequeno.

Fomos para o bloco. Quando entrou no bloco operatório, ele cumprimentou toda a gente como quem chegava a uma festa.

- Bom dia! Não se preocupem. Trouxe bom humor para todos.

Enquanto o anestesista preparava tudo, perguntou-me:

- Doutor... já tomou pequeno-almoço?

- Já respondi mecânicamente.

- Ainda bem. Nunca confiei em quem trabalha de estômago vazio.

Quando a anestesia começou a fazer efeito, ainda teve forças para dizer:

- Se correr tudo bem, pago-lhe um café.

Fechou os olhos.

A operação correu exatamente como devia, excepto a quantidade de pús que tinha naquela barriga e que me surprendeu, bem como à restante equipe.

Tamanha surpresa. Uma peritonite e uma disposição de enganar o mais sabichão que me achava. O pós-operatório imediato decorreu sem sobressaltos.

À tarde quando o fui ver ao quarto, estava ele bem acordado e sorriu-me e disse:

- Afinal tem jeito.

Confesso que aquelas três palavras valeram mais do que muitos elogios recebidos depois.

Dias mais tarde recebeu alta.

À saída apertou-me a mão.

- Doutor...

- Diga.

- O senhor estudou muitos anos para aprender a operar.

- É verdade.

- Pois eu estudei oitenta para aprender a não ter medo.

Ficámos os dois em silêncio.

Percebi então que, naquele hospital, no mesmo dia e na mesma hora tinham sido feitas duas intervenções.

Eu tinha operado a barriga dele. Ele tinha operado o excesso de confiança do jovem cirurgião.

Sem anestesia.

Sem bisturi.

E, curiosamente, sem deixar cicatriz.

Desde esse dia aprendi que alguns doentes chegam ao hospital para serem tratados. Outros chegam para nos ensinar. E esses são perigosíssimos. Saem pelo próprio pé, e levam um pedaço da nossa arrogância na mala.


Sanzalando

29 de julho de 2026

Tesourinhos Musicais 103 - Conjunto de Oliveira Muge - K'arranca às Quartas 129


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Livro - Matéria Negra - Kalunga - K'arranca às Quartas 129


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Esta Música tem uma História 67 - Os Quarto e Meia - Terraplanismo - K'arranca às Quartas 129


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Crónicas de Carlos Osório (28) - K'arranca às Quartas 129


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Crónica de João Portelinha da Silva (34) - K'arranca às Quartas 129


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Crónica 116


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Programa 129 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 29 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que éEsta Música tem uma história com Os Quatro e Meia e Terraplanista, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, O Conjunto de Oliveira Muge
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 Crónicas de Carlos Osório também falou do eclipse, do trânsito e de férias no livro falei com as palavras do Blog de Autores-Club de Kalunga e Matéria Negra

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Pertinências 19 - Alexandra do Carmo


Sanzalando

28 de julho de 2026

A Universidade da esplanada

Em 1970, eu ainda não sabia nada da vida. Sabia jogar à bola sem jeito nem destreza motora, andar de bicicleta sem travões mas muito mal e fugir de casa quando a minha mãe gritava que o jantar estava na mesa e eu achava que ainda era cedo. Mas havia uma coisa que fazia como um verdadeiro profissional: sentar-me na esplanada a ouvir os mais velhos.

Eles não davam aulas. Davam sentenças.

Sentavam-se sempre na mesma mesa, como se tivessem alugado aquele quadrado ao café. Um pedia um café curto, outro um copo de cerveja, um carioca de limão ou um café normal, outro dizia que já tinha bebido água suficiente para aquela semana.

Eu ficava ali, calado, convencido de que estava escondido no meio de uns cabeludos pouco mais velhos que eu. Na verdade, toda a gente sabia que eu era o miúdo que estava ali a ouvir conversas alheias.

Foi nessa esplanada que aprendi que, antigamente, os peixes eram maiores, as sardinhas eram mais gordas, o calor era mais quente, os invernos mais frios e os políticos... bem, sobre os políticos já nessa altura havia opiniões que nunca chegavam ao fim e se ouvia mal poque eram mais sopros que palavras.

Cada um contava uma história melhor do que a do anterior.

- Eu conheci um homem que pescou um tubarão à mão!

O vizinho respondia logo:

- Isso não é nada. O meu tio empurrou um camião sozinho porque ele não tinha motor de arranque.

Ninguém duvidava. Pelo contrário. O objetivo não era descobrir a verdade. Era descobrir quem tinha a imaginação mais bem treinada.

Havia um senhor que começava sempre da mesma maneira:

- Isto aconteceu mesmo...

Quando ele dizia "aconteceu mesmo", todos percebíamos que vinha aí a maior mentira da tarde.

E vinha.

Eu ria-me por dentro, mas fazia um ar muito sério. Era importante parecer um homem entendido. Afinal, estava matriculado na universidade da esplanada.

Ali aprendi que uma história nunca devia ser estragada com factos.

Se alguém perguntasse:

- Tens a certeza?

O contador respondia:

- Se não tenho, passo a ter!

E a conversa seguia feliz.

As horas passavam devagar. Não havia telemóveis para interromper ninguém, nem notificações, nem fotografias do almoço. A única rede social era a mesa do café, onde cada um publicava as suas aventuras e recebia imediatamente comentários, gargalhadas e algumas correções criativas.

Quando o Sol começava a descer, levantavam-se todos devagar, como quem encerrava mais um congresso internacional de especialistas em coisa nenhuma.

Eu regressava a casa convencido de que tinha aprendido muito.

Hoje percebo que aprendi mesmo.

Aprendi que uma boa conversa vale mais do que um relógio apressado, que o humor faz companhia à memória e que os mais velhos nunca contavam apenas histórias. Contavam a maneira como queriam ser lembrados.

E, pensando bem, talvez nenhum deles tivesse pescado um tubarão à mão.

Mas também nunca vi ninguém provar o contrário.



Sanzalando

27 de julho de 2026

fui ao Cardin

Ir à discoteca hoje em dia é um acto burocrático: bilhete e dinheiro no telemóvel, QR code, roupa pensada para o Instagram ou tic-toc e a garantia quase absoluta de que ninguém vai pedir a identificação se parecerem ter mais de doze anos. Mas há cinquenta anos, pouco mais ou menos, meus amigos, entrar numa discoteca aos 14 anos era um desporto de alta competição, uma operação militar de camuflagem e, acima de tudo, um milagre.

Estamos em 1972. O ar cheirava a liberdade mesmo que não tivéssemos noção de isso, a vinil quente e comprado no estrangeiro e a uma quantidade industrial de perfume aplicada com a generosidade de quem tenta esconder o cheiro a tabaco feito às escondidas no wc.

Para um miúdo de 14 anos nos anos 70, a preparação começava logo à tarde. O objetivo era um só: parecer ter pelo menos 18 anos. O problema é que, aos 14 anos em 1972, ou se parecia um miúdo de catequese ou uma tentativa falhada de vocalista dos Bee Gees.

O "equipamento de combate" era sagrado: as calças à boca de sino, tão largas no fundo que varriam o chão da rua e funcionavam como aspiradores naturais de poeira; os sapatos de sola dupla: O grande truque arquitetónico da época, ganhavam-se cinco centímetros de altura instantâneos, à custa de um equilíbrio digno de um equilibrista de circo; a camisa de gola em bico e mil flores.

O toque final? Pentear o cabelo com a força de mil tempestades para criar aquele volume estiloso que dava a ilusão de uma maturidade que a voz ainda a mudar a meio da frase teimava em trair. 

Chegar à porta da discoteca era o momento de pico de adrenalina. Não havia scanners nem detetores de metais. Havia apenas o Porteiro. Uma figura lendária, de braços cruzados e bigode austero, que olhava para a fila com o desdém de quem já viu de tudo.

A tática era simples: engrossar a voz, treinava-se no caminho um "Boa noite, chefe" em tom grave, na esperança de não soltar um "grito de frango" a meio do cumprimento; atitude de tédio, caminhar como se aquela fosse a quinta discoteca da noite e estivéssemos apenas a fazer um favor ao dono em entrar; a camuflagem do grupo, que era  Colocarmo-nos estrategicamente atrás do amigo mais alto que já tinha buço desde os 12 anos e parecia ter idade para pagar imposto.

Quando o porteiro fazia aquele gesto lento com a cabeça a autorizar a passagem, o coração dava um salto maior do que quando o cavalo do carrossel parecia atirar-nos carrossel fora. Estávamos dentro. 

Lá dentro, o cenário era mágico. A bola de espelhos girava no teto, projetando pontos de luz que dançavam ao ritmo do disco da música pop que dominavam os tops da altura. O fumo denso das máquinas, que não me lembro se havia, confundia-se com o fumo real dos cigarros, sim, dançava-se no meio de uma névoa espessa.

E o que se fazia na pista?

Anos 70 não tinham o "abanar de ancas" moderno. Tinha-se o passo base: dois passos para a esquerda, dois passos para a direita, apontar o indicador para o tecto e olhar para o chão com ar concentrado, como se estivéssemos a procurar uma moeda de cinco escudos perdida.

Se tocasse um "slow", o momento de todas as decisões, o pânico instalava-se. Convidar a rapariga da turma para dançar exigia mais coragem do que subir ao da Chela. Se ela dissesse que sim, a distância de segurança entre os dois devia ser mantida sob o olhar atento de algum adulto no bar, enquanto nos deslocávamos em círculos lentos, rezando para que a música durasse pelo menos três minutos mais. 

Às onze da noite — sim, às onze! —, o encanto quebrava-se. Não por ordem da discoteca, mas porque a mãe tinha sido clara: "Se não estás em casa às onze e meia, nunca mais sais!".

Saíamos da discoteca com os ouvidos a zumbir, os pés a arder dos sapatos de plataforma e a roupa a cheirar a uma mistura de fumo e colónia barata. Voltávamos a pé, a rir baixo pela rua fora, sentindo-nos os verdadeiros donos da noite.

Tínhamos 14 anos, não tínhamos telemóveis para filmar a festa, mas trazíamos no peito a certeza absoluta de que, naquela hora e meia de pista, tínhamos sido os tipos mais adultos e cheios de estilo do planeta.



Sanzalando

26 de julho de 2026

eu já fui estudante

O ser humano é uma criatura fascinante. Ele é capaz de enviar sondas para fora do sistema solar, decifrar o genoma e inventar a torradeira que torra o pão com a cara do Mickey. No entanto, colocando esse mesmo ser humano numa secretária com três capítulos de matéria para um exame, e ele descobre em si uma sabedoria milenar que nem o Dalai Lama imaginava possuir.

A tragédia do estudante desdobra-se, invariavelmente, em três actos muito bem definidos:

Tudo começa com a fase bélica. Declara-se a guerra ao conhecimento. O estudante senta-se, abre o livro de Termodinâmica ou um de Anatomia com a garra de um gladiador a entrar na arena.

- É hoje. Hoje leio 80 páginas, faço resumos a três cores, crio menemónicas e ainda tenho tempo para uma corrida no final da tarde.

O ar está pesado com a tensão da batalha. Abre-se o caderno. A caneta azul está sem tinta. A primeira derrota táctica. Vai-se buscar a caneta preta. Mas a caneta preta não combina com a cor do sublinhador amarelo. Uma catástrofe logística. O exército recua.

É aqui que o fenómeno verdadeiramente mágico acontece. Repentinamente, a urgência da guerra dá lugar a uma paz profunda, quase mística. A casa, que esteva uma ruína durante três meses, passa a ser o templo do Feng Shui.

Subitamente, o estudante percebe que:

A gaveta das meias precisa de ser organizada por gradação de cor e percentagem de algodão

A junta do azulejo do wc não está verdadeiramente limpa desde 2018 (e isso afeta a concentração).

É de extrema importância científica descobrir, neste exato momento, qual é a esperança média de vida de um pirilampo na Islândia.

A mente atinge um estado de iluminação tão elevado que até o som de uma mosca a bater no vidro parece uma meditação guiada. O telemóvel, que antes era só um aparelho, transforma-se no portal definitivo para os vídeos de um artesão indiano a construir um palácio subterrâneo usando apenas um pau e lama.

E depois vem a famosa "vontade de ir estudar". Ela existe, atenção. Não se pode dizer que o estudante não quer estudar. O problema é a forma como essa vontade se manifesta no espaço-tempo.

A vontade surge sempre em momentos estratégicos:

- Cinco minutos antes de ir dormir: "Amanhã acordo às 6h00 e leio isto tudo num instante." (Alerta de spoiler: não acorda).

- Enquanto se come uma pizza: "Quando terminar a fatia, arranco." A pizza acaba e entra o coma alimentar.

- Às horas redondas: Se são 14:03, já não dá para começar. Tem de se esperar, por uma questão de respeito pela ordem do universo, pelas 15:00. Se às 15:02 se olha para o relógio... bom, agora só às 16:00.

Às 23:00, a guerra regressa. Não a guerra da disciplina, mas o pânico puro e duro, alimentado por um café morno e pela desesperada esperança de que a matéria entre na cabeça por osmose, basta para isso dormir com a cabeça em cima do livro.

Amanhã há mais. Afinal de contas, a casa nunca esteve tão limpa, o conhecimento sobre pirilampos está no topo e a esperança é a última a morre




Sanzalando

Pertinências 19 - Alexandra do Carmo - Xana - Crise, Existência e Transpassibilidade

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas










Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

25 de julho de 2026

Bom dia Mercado 17 - Rádio Portimão





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo hoje, 25 de Julho de 2026.
Convidados e música ao vivo. Tal e qual foi feito

Ouça-nos tal e qual lá estivemos







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

23 de julho de 2026

O puto que chegou a kota

Há um momento exato na vida de um homem em que o espelho deixa de ditar as regras e o conforto assume o poder absoluto. Para mim, esse momento chegou algures entre o terceiro analgésico para as costas e a descoberta de que o suspensório é a maior invenção da humanidade. Hoje, aos meus cinquenta e muitos quês (vamos ficar por aqui), assumi a minha forma final, sou o kota de calções e chinelos.
Tem gente que diz que pareço um turista alemão que se perdeu a caminho de Portimão em 1996. Eu chamo-lhe pragmatismo estival porque se fosse para lá da linha recta que é curva eu chamaria apenasmente de ser Eu em letra de mais velho.
Sair à rua nesta figura é um acto de libertação e comodidade. Os calções que idealmente deviam ter bolsos laterais suficientes para guardar as chaves do carro, a carteira, os óculos de leitura e um canivete suíço, nunca se sabe quando é preciso descascar uma maçã no banco do jardim, revelam ao mundo dois joelhos com mobilidade e que veem a luz do sol, não como os do meu avô que não a viam desde o Mundial de 46, se é que houve algum antes de eu nascer. Estão aqui para as curvas, os joelhos. Mas que importa? O vento passa por ali e eu sinto-me o rei da marginal ou do areal. Estou somente a ser Eu.
Depois, temos os chinelos. São uns chinelos de marca, daqueles fininhos que dão estilo na praia ou no passeio de fim de tarde. Não são os de pneu que esses já eram faz tempo. São os clássicos chinelos de enfiar no dedo, sola de cortiça e suspensão última geração. Mas que tenho saudades daqueles que quase pareciam ser de pneu de trator. O som que faço ao andar pela calçada portuguesa é a minha assinatura sonora: pateca, pateca, pateca. É o fado do homem livre. Diz o povo que andar de chinelos deforma o pé. Eu digo que deforma é a paciência de quem tem de apertar atacadores com o estômago a fazer pressão contra o cinto e quase a deitar o conteúdo gástrico boca fora.
A melhor parte de ser um kota nesta fatiota é a ida ao café. Entro com o meu pateca, pateca, a vizinhança olha, as miúdas da esplanada desviam os olhos, provavelmente encandeadas pelo reflexo das minhas canelas, e eu sento-me a ler o jornal. O empregado já nem pergunta, traz a bica e o pastel de nata. Há hábitos que não se perdem.
Os jovens de hoje sofrem muito. Vejo-os ali, com trinta graus à sombra, de calças de ganga justas até ao tornozelo e ténis brancos que custaram os olhos da cara, a transpirar pelas costuras só para parecerem giros no Instagram. Olho para eles, dou um gole na bica, ajusto os meus calções que sobem quase até ao umbigo e penso: Coitados. Ainda não sabem o que é a verdadeira felicidade.
Aos vinte anos, queremos engatar o mundo. Aos cinquenta e muitos quês, só queremos que o mundo nos deixe andar frescos. E entre um par de calças que aperta e uns calções que respiram, o kota aqui já escolheu o seu campeonato. Podem rir-se dos meus chinelos. Mas enquanto vocês sofrem com o calor, eu vou ali dar mais uma patecada até à sombra.


Sanzalando

22 de julho de 2026

Tesourinhos Musicais 102 - Amália Rodrigues - K'arranca às Quartas 128


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Livro - O Dicionário (Anabela Quelhas) - K'arranca às Quartas 128


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Esta Música tem uma História 66 -Chico Buarque - Futuros Amantes - K'arranca às Quartas 128


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Crónicas de Carlos Osório (27) - K'arranca às Quartas 128


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Crónica de João Portelinha da Silva (33) - K'arranca às Quartas 128


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Crónica 115 - K'arranca às Quartas 128


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